Maratona de Roterdão: o balanço

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Já passou uma semana desde que corremos a maratona de Roterdão, mas só agora há tempo para escrever sobre o assunto. Nada como uma fim-de-semana prolongado para pôr a escrita em dia!

Tal como já prevíamos, o domingo passado foi um dos mais quentes do ano, e a ideia de correr com 22ºC era tudo menos animadora. Já sabia que o mais provável seria que as minhas ambições em termos de tempo (terminar a prova em 4h15) saíssem frustradas, mas enfim, nada a fazer… O mais importante era aceitar a situação, estar preparada, ajustar as expectativas às condições, e aproveitar o facto de estar um lindo dia de (quase) verão.

Eu e o J tínhamos feito algumas experiências durante os treinos longos e o plano para o dia estava bem estudado: acordar cedo (7h00), tomar um bom pequeno-almoço com papas de aveia, banana e café, e calmamente fazer os preparativos para a prova. Entre casa e o local de partida tínhamos três estações de metro, por isso bastava-nos sair por volta das 9h00 e teríamos tempo de sobra até ao sinal de partida, programado para as 10h00. E teria sido assim, não fosse a organização algo caótica, a dificuldade em encontrar o depósito dos sacos, e o facto de a prova começar no centro da cidade onde, para além dos corredores e apoiantes, andavam também bastantes turistas. Uma confusão no início e algum stress (irritação, mesmo), mas que passaram rapidamente, logo que foi possível entrar para a zona de partida e começar a correr.

Partindo da Stadhuis, um dos poucos edifícios no centro de Roterdão que resistiu aos bombardeamentos durante a segunda guerra mundial, seguimos pela Coolsingel, em direcção à Erasmusbrug. Esta ponte basculante de 802 metros de comprimento, apelidada de cisne (De Zwaan) devido ao formato do imponente pilar assimétrico, liga as partes norte e sul da cidade e oferece uma vista magnífica sobre o rio Maas (Mosa, em português). É também uma das secções do percurso que conhecia melhor, já que praticamente todos os treinos em Roterdão, nos últimos três meses, tinham passado por lá.

Atravessada a ponte e já no lado sul da cidade, a corrida passou por zonas industriais e zonas de campo, com paisagens agradáveis, uma temperatura ainda aceitável, e grande animação, muito por conta das centenas pessoas que assistiam à prova e entusiasticamente apoiavam quem corria. Os cerca de 25 km entre a saída da Erasmusbrug e o regresso a ela foram a parte “mais fácil” da corrida. A partir daí, e principalmente por volta do km 28, já de volta ao centro da cidade, as dificuldades começaram a aparecer. Próximo das 13h e com a temperatura já nos 20ºC, a sede era muita, mesmo tendo bebido água em todos os pontos de abastecimento que existiam (a cada 5 ou 6 km). Felizmente, na véspera da prova tínhamos decidido que talvez fosse boa ideia levar uma garrafa, pelo sim pelo não, e a dita cuja foi providencial no último terço da prova. Ao km 31, no posto de abastecimento, cedi à tentação de dar descanso às pernas e caminhei durante uns minutos. A energia voltou ainda antes de entrar no Kralingse Bos, o parque onde corremos vezes sem conta e que conheço de cor. Talvez por isso tenha conseguido aguentar mais 5 Km até voltar a parar no posto de abastecimento seguinte, para mais umas centenas de metros em modo de caminhada. Não fosse o ambiente de festa e o apoio da assistência na zona de Kralingen, e teria sido muito difícil resistir à vontade de ir para casa, ali a dois passos. Mas a vontade de terminar a prova era também muita, e os 6 kms finais foram cumpridos, mesmo que em modo de pára-arranca. Quando finalmente vi a meta, ainda que ao longe, a energia que restava ainda deu para um pequeno sprint. Terminei a corrida em 4h22, menos 1 minuto do que tinha feito na maratona de Amesterdão (e menos 7 minutos que na maratona de Lisboa). Um recorde pessoal, apesar de tudo. O J terminou a prova 3h50, que é um resultado impressionante para quem tentou a maratona pela primeira vez tendo treinado apenas durante 3 meses!

Foi uma corrida difícil e durante uns dias senti-me um pouco frustrada por achar que, se não fosse o calor, tinha conseguido um tempo melhor. Agora, passada uma semana e mais a frio, percebo que o resultado foi o melhor possível e que aprendi também uma lição importante. Por mais preparados que estejamos, não é possível controlar ou prever todas as situações, e portanto, mesmo não atingindo todos os objectivos é importante saborear as pequenas vitórias alcançadas pelo caminho.

Enquanto vou tentando decidir qual será a próxima maratona (provavelmente no Outono), mostro-vos o video oficial com um resumo da corrida e do ambiente que se viveu em Roterdão. Quem sabe, uma prova a considerar em 2018?

E finalmente, para quem tenha curiosidade em relação aos detalhes mais técnicos da minha prestação, fica aqui a análise da Strava.

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Rotterdam Marathon: race recap

It has been a week since we ran the Rotterdam marathon, but only now I have some time to say a few words about it. Nothing like a long weekend to catch up with the writing!

As we expected, the day of the race was one of the hottest so far, and the idea of running with 22ºC was less than appealing. I already knew that my plans of finishing the race in 4h15 were likely to fail, but there was nothing I could do about it. The most important was to accept that the conditions were not ideal, to adjust my expectations to the circumstances, and enjoy the lovely summer-like day.

J and I had made a few experiments with the previous long runs, and the plan for the race morning was well delineated. On the day of the race we woke up early (7 am), had a good breakfast with oatmeal, banana and coffee, and then calmly got ready for the race. With only 3 metro stops between home and the starting area, it would be enough to leave by 9 am, giving us time to spare until 10 am, the official starting time. And that’s what would have happened if it wasn’t for the somewhat chaotic organisation, the difficulty in finding the bag deposit area, and the fact that the city center was crowded with runners, supporters, and tourists. A messy and stressful start, some irritation even, which quickly vanished once we were allowed in the running area and the race began. 

From the Stadhuis (one of the few buildings in the center of Rotterdam that resisted to World War II bombardments), we ran through the Coolsingel, toward the Erasmusbrug. This 802 meter long bascule bridge, nicknamed “The Swan” due to the shape of its asymmetric pylon, connects the north and south parts of the city and offers an amazing view over the Maas river. It’s also one of the sections of the race that I was more familiar with, since we ran through it in most of our trainings, in the previous 3 months.

After the bridge and already on the south side of the city, the route alternated between industrial areas and more countryside-looking landscapes. The temperature was still quite acceptable and the atmosphere was great, with hundreds of supporters along the way, enthusiastically cheering and high-fiving the runners as we passed. The 25 km between the exit of the Erasmus bridge and the return to it were actually the “easiest” part of the race. After that, especially from km 28, already back in the city center, the difficulties started to appear. It was close to 1 pm, the temperature was reaching 20ºC and I was feeling really thirsty, despite having taken water at all the drinking stations (every 5 or 6 km). Luckily, we thought, the day before, that it would probably be good to take a water bottle with us, just in case. It proved to be an excellent idea, especially in that last third of the race.

At the drinking station on km 31, I finally gave in to the temptation of resting my legs and walking for a few minutes. The energy returned just before entering Kralingse Bos, the park where we ran countless times and that we know by heart. Maybe because of  that familiar feeling, I managed to ran another 5 km before slowing down again at the next drinking station. If it wasn’t for the festive atmosphere and the incredible support of people in the Kralingen neighbourhood, it would have been very difficult to resist the idea of going home, just a few hundred meters from there. But the will to finish the race was also strong and so the last 6 km were somehow completed. When the finish line was finally in sight, I managed to summon the last bit of energy and attempted a final sprint. I finished the race in 4h22, one minute less than at the Amsterdam marathon (and seven minutes less than in Lisbon). So, despite the struggle, it was still a PR. J finished in 3h50, which is an incredible result for someone who attempted a marathon for the first time, having trained for only 3 months!

It was a tough race, and for a couple of days I felt a bit frustrated because I was convinced that if it wasn’t for the heat I would probably have reached my time goal. Now, having had the time to process it all, I understand that the result was the best possible and that an important lesson was learned. No matter how prepared one may be, it is impossible to predict and control everything and so, even if the final goal is not attained, the little victories along the way should be celebrated.

While I try to decide which will be the next marathon, most likely in the fall, I’ll share (above) the official video of the marathon, which gives a nice idea of the race and the atmosphere in Rotterdam during that weekend. Maybe something to consider for 2018? And if you are curious about the technical details of my performance, check the race analysis report on strava, or in the graph above.